Parlamento de exceção: seria um papelote de cocaína na mão de um senador?

Imagem captada durante sessão de questionamento de Dilma Rousseff mostra um senador com um saquinho na mão, contendo um pó branco.



Dentre todos os episódios tragicômicos da política brasileira, este talvez seja o que mais reflete a situação de um país em que os poderosos não estão sujeitos às mesmas leis que o povo: na sessão extraordinária do dia 29 de agosto, segunda-feira, a câmera captou, inadvertidamente, a mão de um senador que segurava um saquinho contendo um pó branco (vídeo abaixo).
Enquanto a presidente afastada Dilma Rousseff respondia aos questionamentos de Aloysio Nunes, senador pelo PSDB de SP, a tal mão apareceu no canto da tela e foi percebida por telespectadores que imediatamente compartilharam o vídeo nas redes sociais, por volta das 17 horas. 
A verdade é que não sabemos o que estava naquele saquinho, poderia até ser sal, mas a possibilidade de se tratar de cocaína não chega a ser absurda, levando-se em conta o histórico brasileiro de políticos com envolvimento no tráfico de drogas - e, sabemos, um dos senadores tem uma notória reputação de usuário e pode ser que ele não seja o único.
Espalhando-se pela internet, a imagem chega a ser cômica no âmbito da falta de preocupação dos detentores do poder com a aplicação das leis mais básicas, e é também desesperadora, por evidenciar que o cumprimento da legislação é diferente entre os políticos. A seletividade atinge seu nível máximo quando um senador pode, sem preocupações, supostamente consumir o que bem entender dentro do plenário, inclusive cocaína. Mesmo sem a comprovação do que seria aquele pó, é absurda a simples possibilidade de toda uma população cogitar que se trate, ali, de uma substância ilícita.
É ainda irônico pensar que, em pleno tribunal (o processo de julgamento da presidente faz do Senado um tribunal jurídico), um dos juízes esteja exercendo sua função enquanto ele mesmo comete uma contravenção. 
Chamamos de "estado de exceção" uma situação em que direitos e garantias constitucionais se encontram suspensos e na qual há concentração de poderes. Claramente, testemunhamos um julgamento em que seu resultado já foi tido como certo antes mesmo de acontecer. Nesse sentido, o direito à ampla defesa foi meramente encenado, uma vez que, independentemente da qualidade da defesa da ré, os juízes não seriam influenciados a mudar seu ponto de vista. A restrição do direito à ampla defesa ocorre na medida em que provas e argumentos contrários à acusação são ignorados e até distorcidos ou inseridos num contexto bem maior, que não tem relação alguma com o julgamento em si.
Entre nossos parlamentares, o "estado de exceção" parece ter alcançado uma continuidade que se perdura a ponto de ser possível gozar de direitos que não são outorgados a nenhum outro cidadão, dentre eles, o inimaginável consumo de cocaína em plena sessão extraordinária.
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